Não à verticalização desregrada das cidades brasileiras

25 abr

Hoje me deparei com um texto de uma amiga, também jornalista, Adriana Delorenzo, que escreve no Blog das Cidades, do site da Revista Fórum, com uma opinião muito legal sobre o protesto que moradores do bairro de Pinheiros, em São Paulo, estão fazendo contra a verticalização do bairro.

O post, intitulado “Verticalização não é sinônimo de inclusão da classe C”, ela destaca um outro artigo, do blogueiro da Folha de S. Paulo, Raul Juste Lores, chamado “Os privilegiados da Vila Madalena”.

Pinheiros, ainda com trechos preservados. (Crédito foto: Emiliano Homrich – http://www.fotossaopaulo.com.br)

O texto de Raul diz:

“proibir a verticalização em áreas centrais no momento onde finalmente nossa nova classe C quer e pode comprar seu primeiro apartamento, é uma maldade pouco ecológica. Ou crescemos para cima ou continuaremos crescendo para os lados.”

A meu ver, a Adriana fez muito bem em comentar este artigo no seu post para esclarecer algo que as pessoas confundem demais e, empolgadas com crescimento econômico, aquecimento do mercado, se esquecem que as coisas precisam ser planejadas, que tudo deve ser muito bem pensado para que, no futuro, a gente não viva no caos – do qual já estamos bem perto, ainda mais em São Paulo.

Abaixo, um pequeno trecho do texto dela:

“A Vila Madalena, conhecida por suas casinhas e concentração de ateliês de arte e barzinhos, está passando por um processo em que as casas estão sendo derrubadas para dar lugar aos lançamentos de grandes edifícios. Porém, pelo preço do metro quadrado, que chega a R$ 10 mil, o bairro está longe de atrair a classe C.”

Brasília vive o mesmo problema da verticalização, ainda que tombada como Patrimônio Cultura da Humanidade. Segundo o projeto original de Lúcio Costa e Niemeyer, os prédios não devem passar de 6 andares, respeitando distâncias entre si, construídos sem pilotis e sem grades ao redor, as quadras são bem arborizadas e tudo deve ser preservado para garantir a qualidade de vida dos cidadãos.

Mas o que se vê são prédios enormes e horrendos surgindo nos setores hoteleiros, bancários, de autarquias e de lazer, todos próximos à área da rodoviária, o ponto central do plano. Isso sem falar nos novos prédios do Noroeste, onde provavelmente existem interesses de grandes empreiteiras e incorporadoras imobiliárias. E tudo custa caro, claro.

Também vemos as cidades-satélites passando por esse mesmo processo de especulação imobiliária desenfreada, com prédios todos muito parecidos, enormes, tudo sem planejamento nem controle e cobrança da população e do Governo do Distrito Federal.

Não vejo problemas em “crescer para os lados”, como diz o autor Raul Juste. O que as pessoas têm medo é de ficar longe dos bairros que, hoje, são mais “chiques”, “hype”, nas cidades. Mas é só o bairro ter um bom projeto urbanístico e o governo estadual e municipal garantir transporte público de qualidade bem como ciclovias, que a “horizontalização” se torna uma opção viável.

Ou seja: construir mais prédios altos, verticalizar e superlotar bairros não tem a ver, necessariamente, com inclusão social e distribuição de renda. Pelo bem das nossas cidades e do nosso futuro.

Além disso, os brasileiros que hoje não usam espaços públicos precisam urgentemente reaprender a utilizar e conviver neste locais (parques, bibliotecas, praças, etc), principalmente nas grandes cidades do país. E todos devem cobrar do poder público espaços de qualidade, bem iluminados, projetados, interessantes.

Pra finalizar, deixo aqui o trecho de uma entrevista com a professora Ermínia Maricato, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, publicada na Tribuna do Norte e divulgada também pelo blog da urbanista Raquel Rolnik:

“Pobres no geral não têm direito à cidade, ou seja a maioria. Não há acesso a essa terra urbanizada. E por que? Porque essas terras estão sob o domínio do mercado imobiliário. Nossas cidades hoje são pasto para o mercado imobiliário, elas são comandadas por esse mercado. E os preços estão subindo.”

OBS: Pessoal, com este post, não quero dizer que sou contra subir mais prédios em bairros centrais das cidades. Claro que as pessoas querem praticidade nas suas vidas, morar perto do trabalho, da escola do filho, etc. Mas, para estes casos, acho que os Planos Diretores devem ser feitos e RESPEITADOS.

a orla de Boa Viagem, em Recife (PE), e seus prédios monstrengos, que fazem sombra no começo da tarde e acabam com o dia de lazer na praia de turistas e cidadãos locais para garantir a pouquíssimos o direito de se ter vista para o mar

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2 Respostas to “Não à verticalização desregrada das cidades brasileiras”

  1. André abril 26, 2012 às 8:37 am #

    “Não vejo problemas em “crescer para os lados”, como diz o autor Raul Juste. O que as pessoas têm medo é de ficar longe dos bairros que, hoje, são mais “chiques”, “hype”, nas cidades.”

    Quanta bobagem. As pessoas na verdade querem é morar em locais próximos aonde trabalham(A jornada entre o trabalho e a casa para o brasileiro é excessivamente longa, e isso é uma desgraça tanto para a produtividade quanto para o bem estar das pessoas). E ambientalmente “crescer para os lados” é um desastre porque isso exige uma quantidade imensa de recursos e você precisa do carro basicamente para tudo.

    É só olhar para aberrações como Alphaville, Quinta da Baroneza, Granja Vianna, etc para entender os problemas de se “crescer para os lados”.

    • Carol Monteiro abril 26, 2012 às 9:36 am #

      Então, André… Acho que você pode não ter entendido bem algumas coisas que eu disse. Quando eu falo que sou a favor de buscar a opção de “horizontalização”, isso deve ser feito simultaneamente a outras ações na cidade, como planejamento urbanístico, agregando todas os bairros de forma saudável, sustentável e inteligente, e entra aí, sem dúvida, a questão do transporte público.

      Eu também sou contra condomínios como os que você citou. São todos bolhas criados por ricos com medo da violência, são os que eu disse que desaprenderam a usar e a exigir espaços públicos de qualidade. É claro, eles preferem se ilhar e construir os deles próprios.

      Sobre morar perto do trabalho, acho essa alternativa válida, claro. Eu mesma morei assim em São Paulo, quando optei por não ter mais carro e fazer tudo a pé ou de transporte público. Mas a questão é que a população não vai parar de crescer e, se a verticalização desenfreada continuar, daqui a pouco ninguém mais sai do lugar.

      Eu venho de um bairro de SP que passou por isso, Santana. Lá o trânsito está insuportável… Eu sei pq meus pais ainda moram lá. Quando vou pra lá, pra ir pro outro lado da cidade, prefiro pegar o metrô, msm final de semana. Fico bem menos estressada, aproveito o tempo pra ler um livro ou simplesmente curtir a jornada. Ok, vc vai falar que no fim de semana é fácil. Concordo. O metrô está mais vazio e não caótico, lotado, desumano, como em algumas cenas que já vi e presenciei na estação da Sé. Mas aí é que está: todos nós sabemos que o metrô de São Paulo não cresceu proporcionalmente à sua população. É preciso muito mais linhas e trens.

      Enfim, acho muito cômodo pra algumas pessoas e ótimo pras empreiteiras e incorporadoras a verticalização, porque difícil mesmo é tentar buscar um novo modo de vida.

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